sábado, 27 de agosto de 2016

A GOLPAÇA

(Osmani Simanca, http://atarde.uol.com.br)

(Eulogia Merle, http://elpais.com)

Está em plena finalização o processo de afastamento definitivo de Dilma Rousseff do poder no Brasil. Com o mesmo à-vontade com que aqui explicitei a minha pouca simpatia pela personagem e pelo seu posicionamento político, quero aqui deixar dito quão lamentável e antidemocrática considero esta forçada destituição. Dilma cometeu certamente vários tipos de erros políticos e económicos, terá sido até complacente ou cúmplice para com indesculpáveis aproveitamentos partidários, pessoais ou de grupo por parte de altas figuras do estado-maior do PT (Lula incluído?), mas as suas “pedaladas fiscais” (reais ou pretensas) não constituem mais do que um pretexto mal explicado e pessimamente urdido para inapelavelmente a afastar. Ademais sob a liderança de gente não especialmente recomendável (como Temer em mau e Cunha em muito mau). Não sei se, em rigor, se pode chamar “golpe de Estado” àquilo a que estamos a assistir quase em direto, sei sim quanto me custa ver figuras democráticas e prestigiadas que admiro(ava), e senhoras de um louvável trajeto de serviço à causa pública, a prestarem-se tão candidamente a uma maquinação deste rasteiro quilate...

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

JACKSON HOLE (II)




(Mais algumas reflexões sobre o simpósio do Wyoming, agora que o programa é conhecido e o debate já começou)

O Governador do Banco de Portugal Carlos Costa teve a amabilidade de me dirigir uma curta e contida comunicação sobre a sua nova participação no simpósio de Jackson Hole, organizado pelo Federal Reserve Bank de Kansas City, mais especificamente a quarta participação no evento.

A partir do seu testemunho pessoal que muito agradeço é possível confirmar algo de promissor: o debate entre os condutores da política monetária, os bancos centrais, estará mais avançado do que transparece do que vai sendo lido na imprensa especializada. Isso deve-se, e muito bem, a uma prática de discussão em ambientes restritos e limitados à esfera dos bancos centrais, que só esporadicamente, como em Jackson Hole, é partilhado, embora com limitações, com o exterior, neste caso a academia. Significa isto que os condutores da política monetária estão atentos à mudança radical de contexto em que operam, levando a sério os avisos e ensinamentos de alguns economistas. Aparentemente o debate estará mais atrasado entre os políticos, projetando-nos num dos temas centrais deste blogue: por que razão se transformaram as relações entre o conhecimento económico e a decisão política?

No estado da arte global que é conhecido, imaginar que a política monetária poderá substituir-se aos custos das decisões políticas que produzam as escolhas públicas certas para afrontar os problemas da economia global é pura mistificação. Certamente que a política monetária ajudará, sobretudo se encontrar um novo paradigma para o novo normal dos tempos que correm. Mas imaginar que a decisão política pode esconder-se eternamente atrás dos condutores da política monetária tem de ser ampla e decisivamente denunciado.

Os primeiros papers e handouts estão já disponíveis. Matéria para posts seguintes.

DIESE DEUTSCHEN!



Acho que já poucos de nós têm dúvidas sobre a abstrusa natureza destes alemães que nos governam. Mas aí deixo mais dois exemplos recentes disso mesmo, um vindo diretamente do coração do governo da “grande coligação” – apresentando um “novo conceito de defesa civil” que aconselha os cidadãos do país a armazenarem água e comida (para cinco e dez dias, respetivamente) e a estarem preparados para uma eventual situação de emergência – e outro proveniente da líder populista do AfD e sumariamente traduzível na necessidade de uma autodefesa armada por parte da população. Como alguém dizia aqui por perto de mim: “esta gente é mesmo estranha, uma gente que vive em permanente estado de tensão e que, quando não tem problemas graves, inventa-os!”. O pior, como notoriamente evidenciaram os mais trágicos acontecimentos históricos do século XX, são as consequências...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

PEQUENINOS E FRÁGEIS




(Por estranha coincidência, a trágica destruição de vidas e memórias ancestrais em Amatrice coexistiu na comunicação social com a descoberta de um novo planeta, cujo potencial em termos de acolhimento de vida e a distância face à terra não é coisa que a tecnologia não possa resolver em tempos não muito longínquos)

A Itália central, mais ou menos costeira, e as suas zonas de transição para a Itália do sul acolhem burgos preciosos, preciosidades patrimoniais e de vivência humana dos pequenos aglomerados que ficam para sempre gravados nas nossas experiências de visitantes acidentais, flâneurs urbanos e desse tipo de ecossistemas. Mas na preciosidade patrimonial e na sugestão da memória oculta-se uma enorme fragilidade que emerge cruamente sempre que as entranhas da terra se agitam furibundas vá lá saber-se com quê. É a fragilidade humana que se manifesta, mas também a fragilidade física das infraestruturas, sobretudo no contexto de uma região marcadamente sísmica, e onde o epicentro pode agitar-se perto de zonas mais densas e quando isso acontece pode esperar-se o pior. Mas é ainda a fragilidade organizativa que se manifesta também cruamente quando é necessário enterrar mortos, procurar desaparecidos e tratar os mais atingidos, visível amargamente naquela denúncia violenta dos dois residentes de Amatrice quando vociferavam contra o isolamento, o abandono e o facto dos militares não terem aparecido para protagonizar ajuda e salvamento. Se quiséssemos ser rigorosos, tantos territórios, umas vezes joias patrimoniais, outras vezes nem por isso, se encontram em situações de fragilidade não apenas sísmica mas de outras naturezas como aqueles pequenos aglomerados italianos e não apenas nessa Itália. Por toda essa Europa, e sobretudo na menos desenvolvida, só a convergência benéfica dos astros ou de outras causas impede que essa fragilidade se manifeste. Nós, Europeus, que valoramos tanto a vida ao contrário de outras sociedades em que o preço da vida parece ter sucumbido para níveis impensáveis, certamente não nos apercebemos quão frágil pode ser a nossa existência em determinados contextos territoriais.

Entretanto, a televisão, rendida a um voyeurismo inclassificável continua a deleitar-se dos incêndios aos terramotos, preenchendo os restos de uma silly season.

Em simultâneo, soubemos estes dias (link aqui) de uma descoberta relevante de uns astrofísicos que descobriram um planeta aparentemente com condições potenciais de acolhimento de vida humana e em circunstâncias de proximidade astral à Terra suscetível de ser considerada como atingível em tempo compatível com a própria sobrevivência da espécie humana. O PROXIMA b gira em torno de uma estrela, PROXIMA CENTAURI, com alguma proximidade a esta última. Este facto, se tem a vantagem de assegurar a conservação de temperaturas quentes num sistema solar frio, também o submete a um nível de radiações, que fazem despertar dúvidas sobre as condições de vida que pode oferecer

A fragilidade humana também se faz de pequenez, cada vez mais revelada, seja na debilidade das infraestruturas, seja na dimensão do Universo. Será talvez o envelhecimento a recordar-me a minha própria fragilidade. Ou pode ser, em termos mais otimistas, o resultado de um dia de trabalho na canícula de Lisboa, que sempre me amolece as resistências. Ou talvez um misto das duas, quem sabe?

UM 24 DE AGOSTO TRÁGICO


Desde ontem, a data que os portuenses associam à Revolução Liberal de 1820 e encontram consagrada no nome de uma praça/”campo” da freguesia do Bonfim – onde Eduardo Souto de Moura projetou uma belíssima estação de metro com os resquícios arqueológicos da “Mãe de Água” que abastecia a antiga fonte de “Mijavelhas” – passou a ser negra em Itália. Uma desgraça que forçosamente nos remete para a pequenez da condição humana mas cuja dimensão de irremediável não deve levar-nos a secundarizar os dramas evitáveis que quotidianamente essa nossa espécie vai produzindo...


(Idígoras y Pachi, http://www.elmundo.es)

(Emilio Giannelli, http://www.corriere.it)

(José María Nieto, http://www.abc.es)