segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

AMBIENTE DE TRANSIÇÃO

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

(Osmani Simanca, http://atarde.uol.com.br)

Enquanto vai acelerando a contagem decrescente para a inaudita posse de Donald Trump – por vezes ainda sou tentado a pedir que me belisquem para confirmar a realidade americana que cada dia nos é apresentada pelos meios de comunicação e pelas redes sociais! –, tomemos o tema ambiental como um relevante elemento diferenciador entre o velho e o novo – e a ordem dos fatores não é arbitrária! – no país que se gaba de uma posição liderante no mundo em que vivemos. Como se sabe, o confronto presente situa-se no plano do aquecimento global e das mudanças climáticas, mas lá virão atrás dele muitas outras dimensões desse tal “mundo imundo” que alguns interesses insistem em negar ou ignorar – deixo, simplesmente, pequenos exemplos do nosso quotidiano...

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

E ASSIM ACABOU UM DOS SÍMBOLOS DO REGIONALISMO GALEGO!

(El País)



A rotura plena das Caixas, as entidades bancárias regionais espanholas, na sequência do resgate à banca espanhola, por sua vez resultado de uma série diversificada de desvarios que a crise financeira de 2007-2008 veio destapar, foi um duro golpe nas pretensões regionalistas de algumas regiões espanholas. Afinal, com essa rotura, perdiam um dos seus “braços armados”, a peregrina ideia de que na economia global pode haver instituições bancárias de dedicadas a um território e sabe-se lá a que cumplicidades, mais propriamente imparidades na linguagem da rotura.

O regionalismo galego não fugiu à regra. A Caixa Galicia, com epicentro na base financeira da Corunha, e tudo indica com o suave manto da Opus Dei a envolvê-la, antevia-se ser uma peça chave do regionalismo galego, Fraga compreendeu-o como ninguém e as restantes lideranças galegas tudo fizeram para prolongar essa cumplicidade. Mas as cumplicidades geradoras de imparidades eram muitas e as réplicas da crise financeira em Espanha precipitaram a sua transformação. Mas as soluções apontadas à criação de novas entidades não estiveram à altura das responsabilidades. 5 altos dirigentes da Nova CaixaGalicia, uma espécie de banco bom da velha Caixa Galicia, viram ontem confirmada a sua pena de dois anos de prisão, determinada pelo facto de se terem atribuído pré-reformas milionárias em plena crise e em pleno desespero de muitos depositantes atingidos pelo processo. Um ambiente-filme de fim de festa e adeus braço armado do regionalismo galego, amputado da sua base financeira. Resiste o Santo, a Catedral e outras tradições, designadamente culturais e gastronómicas que muito apreciamos, entre os quais eu próprio na minha vida de cidadão transfronteiriço aprendiz. Seguramente um regionalismo mais soft e imaterial, mas talvez mais resiliente do que a ilusão de uma base financeira regional.

A crise trouxe muitos ensinamentos. Aliás como todas as crises.

O ROSTO




(Há poucos rostos marcantes no cinema português e que me identifiquem com ele, a morte de Maria Cabral em Paris, aos 75 anos, recorda-nos como um rosto pode representar algo de mais vasto alcance…)

Não sendo propriamente um filme excecional, o Cerco (1970) de António da Cunha Telles permanecerá como um dos símbolos do novo cinema português que despertava por entre a censura e a decadência marcelista. Mas, independentemente da valia do filme e do que ele representava como possível metáfora da agonia e do desencanto suscitados pelo regime, o Cerco é para todos o rosto surpresa de Maria Cabral, vinda do não-cinema, sem qualquer experiência de trabalho anterior.


Noutro país de produção cinematográfica mais vasta e diversificada, Maria Cabral teria sido uma Binoche portuguesa, não o foi e dificilmente os outros filmes que se lhe seguiram, incluindo o segundo com António da Cunha Telles (Vidas, 1984), pouco acrescentaram ao fulgor da sua primeira experiência cinematográfica. Há casos assim.

A Marta representava uma certa juventude da burguesia de então que procurava uma outra autenticidade que o clima do regime não permitia. A vertigem e a desorientação da rotura são irrepreensivelmente captadas pela fragilidade de Maria Cabral. É espantoso como num rosto se pode concentrar uma parte considerável da nossa perceção do que foi a evolução irreversível para a transformação democrática.

Recordem só as primeiras imagens do filme: https://www.youtube.com/watch?v=24n3doXccSE

domingo, 15 de janeiro de 2017

PORQUE DESCE O PESO DO TRABALHO NO RENDIMENTO NACIONAL?

(Cálculos próprios a partir de AMECO - CE: http://ec.europa.eu/economy_finance/ameco/user/serie/ResultSerie.cfm


(Ainda essencialmente à boleia do debate iniciado na economia americana, vale a pena registar novas perspetivas sobre o tema, a pensar em aplicação futura ao caso português…)

A minha formação em matéria de crescimento económico e também a minha prática letiva inicial fizeram-se com a explicitação de uma regularidade do crescimento económico a longo prazo, que faz parte do conjunto de factos estilizados designados de Kaldor em homenagem ao economista Nicholas Kaldor que estudou proeminentemente esses dados. Essa regularidade diz-nos (dizia-nos, melhor dizendo) que o peso das remunerações do trabalho no rendimento nacional tende a ser constante a longo prazo. Ser constante a longo prazo não significa que esse valor não varie. Tão só nos pretende dizer que essa variável tenderá a oscilar em torno de um valor de referência pressupostamente constante.

Tal como outros “factos estilizados de Kaldor” têm sido questionados pelo comportamento mais recente do crescimento económico, a constância do peso das remunerações do trabalho no rendimento nacional tem sido objeto de generalizada contra-evidência, a qual anota que aquela variável tem vindo a descer sistematicamente na última década e meia na economia americana.

Como seria de esperar, quando um facto estilizado é questionado, emerge regra geral forte controvérsia sobre os fatores estruturais que explicarão essa viragem. O debate tem dimensões, entre outras, de alguma tecnicidade que irei compreensivelmente ignorar. Problemas como a medida do capital residencial e do capital mais intangível (ideias e software) e a descida do preço relativo do capital estão nesse campo da controvérsia. Há também quem invoque o tema dos choques de importação, dada a internacionalização do mercado interno das principais economias avançadas.

Entretanto, acaba de ser publicada investigação muito recente, assinada por gente que me merece a máxima atenção dada a relevância de outros contributos que esse grupo de economistas americanos nos tem oferecido em matérias ligadas com a transformação estrutural dos mercados de trabalho das economias mais avançadas: é o caso de David AUTOR, David DORN e Lawrence KATZ, aos quais se juntam agora Christina PATTERSON e John Van REENEN (ver link aqui).

Segundo esta investigação bem “fresquinha”, a queda do peso das remunerações do trabalho dever-se-ia essencialmente a uma transformação da estrutura empresarial de diversos setores de atividade económica (indústria e serviços), segundo a qual a concentração crescente e os ganhos de quota de mercado de empresas com quotas de emprego mais baixa e em declínio progressivo teriam peso explicativo. Os economistas americanos designam esta interpretação de modelo da empresa “super star”, segundo o qual a competitividade de uma ou de um grupo restrito de empresas pode consumar-se com um aumento substancial da sua quota de mercado.

É por isso uma explicação que valoriza a heterogeneidade empresarial na indústria e nos serviços através do fenómeno da concentração empresarial. Sem querer entrar em pormenores de grande tecnicidade, os autores associam a queda do peso do emprego a dois possíveis processos: o aumento da margem de lucro em função da dimensão da concentração e a presença de uma percentagem de trabalho fixa relativamente à componente de trabalho variável em função da dimensão.

As evidências apresentadas para a economia americana são robustas, mostrando que os níveis de concentração variam solidamente com a queda do peso do trabalho, com foco principal no período de 2007 a 2012 que faz já parte do período que gerou a controvérsia acima referida. O que estes resultados nos mostram é que não é a descida do peso do trabalho no interior de todas as empresas que explica o fenómeno, mas antes a reafectação do trabalho para empresas com pesos do trabalho mais baixos e em declínio progressivo.

Confesso que me interessam bastante as abordagens da heterogeneidade empresarial dos universos industriais e dos serviços. A investigação de AUTOR e parceiros é promissora e aguça o apetite e o engenho para a aplicar ao caso português que pode não a refletir, dado o nosso mais incipiente grau de concentração empresarial. Mas que o peso das remunerações do trabalho no rendimento nacional caiu acentuadamente nos últimos anos disso não tenho dúvidas (veja-se o gráfico que abre este post).