domingo, 25 de setembro de 2016

ENTARDECER DE OUTONO NA CASA




(Regresso ao ciclo de piano da Casa da Música, para alargar a minha gama de entradas de melómano eternamente iniciado)

Não conhecia Elisso Virsaladze (vejam este recital aqui), a pianista Georgiana de Thiblissi, mas a sua presença austera em palco combinava bem com aquela luz irrepetível do entardecer na Casa da Música, em que a luz natural vai envolvendo o piano até a noite impor a sua lei. A Escola Russa no seu melhor.

Um programa delicioso feito sobretudo de transcrições para piano de algumas obras de Bach, Schubert, Schumann e de Gounod, combinado com originais de Schubert, Schumann e Chopin. O virtuosismo de Franz Lizt, autor das principais transcrições para piano, aqueceu o lirismo de algumas dessas pérolas.

Os momentos musicais de Schubert e a Berçeuse e a Barcarola de Chopin proporcionam a harmonia perfeita com a luz irrepetível da Casa. E o que resulta daí projeta-nos numa sensação de felicidade que procuramos repetível numa próxima oportunidade.

CORBYN É PARA LEVAR MAIS A SÉRIO


Desde que foi eleito para a liderança do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn (JC) tem sido um verdadeiro bombo da festa. E, embora não se possa considerar que fez e disse tudo certo (longe disso!) enquanto ocupante daquela função, o que há mais é quem afirme que o essencial das reações contrárias com que se tem vindo a defrontar provém das suas assumidas convicções políticas e ideológicas de esquerda, i.e., bem mais extremadas do que o que carateriza o Labour convencional e domesticado por anos de inclusão ativa no núcleo duro do sistema. Ao mesmo tempo que outros sublinham o irrealismo prático de algumas das suas perspetivas e opções, o que também não deixa de se confundir com medos da mudança e desejadas vontades de proteção de interesses instalados.

Seja como for, e apesar de muito fortemente contestado em todos os palcos, JC acaba de vencer tranquilamente a contenda interna para que foi desafiado e prossegue assim legitimamente em cena. Alguns incorrigíveis proclamam que estaremos agora a conhecer uma fase política na Europa cuja novidade se traduz na entrada em força de ideais de pendor populista nos partidos tradicionais e constitutivos das grandes famílias políticas (não obstante Corbyn nada ter a ver, por exemplo, com as inqualificáveis perversões de outros filiados no PSE, como sejam os extraordinários social-democratas eslovacos liderados por Fico...). Temos pois de admitir que vai ser curioso observar JC em ação perante eleições e eleitorados concretos e que só então avaliaremos conscientemente até que ponto poderá ser portador e agente de surpresas agradáveis – why not?

sábado, 24 de setembro de 2016

O RECUO DA GLOBALIZAÇÃO PELAS LENTES DA OCDE




(O tema do recuo da globalização foi aqui devidamente antecipado, e a tendência mantem-se agora com a OCDE a acusar esse registo na qualidade de guardiã do comércio livre, o que mostra estarmos perante um facto estrutural incontornável no pós-crise financeira)

A OCDE veio a jogo para, na qualidade de guardiã do templo do comércio livre, expressar a sua preocupação para com a convergência de uma série ampla de indicadores, todos apontando para a evidência do recuo da globalização, pelo menos da sua dimensão económica de integração das trocas internacionais.

O Interim Economic Outlook de setembro de 2016 e alguns artigos de suporte que o ajudaram a preparar acolhem evidências diversificadas que vêm na linha de dimensões analíticas destacadas neste blogue. Entre tais evidências, o comportamento de recuo ou de encurtamento que as cadeias de valor globais (CVG) estão a atravessar merece uma referência particular. A extensão dessas CVG é seguramente um dos mecanismos chave através dos quais a integração económica mundial se aprofunda. Quanto mais forte é o peso do comércio dos produtos intermédios no comércio mundial mais intenso é o alargamento das CVG e, consequentemente, da dimensão económica da globalização. Ora esse indicador está em recuo, como se as CVG estivessem a encolher. O gráfico que abre este post descreve esse alerta.

Uma outra dimensão do pronunciamento oficial da OCDE suscita mais questões e prende-se com a associação que a organização internacional faz entre o recuo da globalização e os problemas de produtividade que a economia mundial está a experimentar. Uma organização guardiã do templo do comércio livre teria obviamente que forçar essa interpretação. Porém, embora lhe assista todo o direito de alertar para os perigos que pode representar para muitos países o fechamento económico do mundo, a OCDE deveria oferecer um contributo bem mais relevante para questionar os rumos da globalização tal como esta se manifestou no período anterior à crise de 2007-2008. Sem esse outro contributo, os seus alertas sobre o recuo da globalização correm o risco de ser uma simples constatação de uma evidência, ou seja caírem em saco roto.

UM CONTRIBUTO PARA A HISTÓRIA!


A defesa de Saraiva nas páginas do “seu” jornal – daquele que se anunciou tronituantemente como o que iria arrumar com o reinado do “Expresso” e que agora vai acabando moribundo e de mão estendida a angolanos – é, por si só, uma peça que merece alguns minutos de atenção. E os títulos secundários, em primeira página, dizem tudo quanto à fina inteligência que arquiteto põe ao exclusivo serviço do seu narcisismo – não quis magoar ninguém deliberadamente (sobretudo os falecidos agradecem!), teve a noção de estar a pisar o risco (então não, como podia ser de outro modo?) e as pessoas que não têm um grão de loucura não têm graça nenhuma (com esta concordo sobremaneira!). Cela dit, que contraste entre a perversão disfarçada de um e o amedrontamento escondido do outro!

(António Jorge Gonçalves, http://inimigo.publico.pt)

CONFUSÃO, CIÚMES E ALGAZARRA


Um sintomático registo resumido do espetáculo proporcionado por Portugal quando visto de fora nos termos de um apanhado ontem observado e publicado pelo mais prestigiado jornal espanhol. Pergunto-me, meus senhores, se nisto nos revemos como correspondendo ao melhor de que somos capazes, se será mesmo esta a nossa sina...